O Fio da Literatura | Temporais

O Fio da Literatura | Temporais
A Tempestade
O homem que tanto desejava encontrar veio abrir-me a porta, segurando um na mão um pássaro ferido e tremulo. Saudei-o e disse: “Desculpa-me por favor por me apresentar aqui neste estado. Mas o temporal é violento e estou longe das habitações”.
Fixo-me severamente e respondeu num tom de condenação: “ As grutas são numerosas nesta região. Podias ter-te refugiado numa dela.”
Disse isto, enquanto acariciava o pássaro com uma ternura que nunca vira na minha vida. A compaixão e a aspereza viviam lado a lado naquele homem. Fiquei espantado.
-Se a tempestade tivesse engolido, acrescentou, terias recebido uma honra que não mereces.
Respondi: Sim senhor. E fugi da tempestade e me refugiei aqui para não receber uma honra que não mereço.
Virou a cabeça, procurando esconder um sorriso leve; depois acenou para uma cadeira e disse: “senta-te e enxuga tua roupa.”
Sente-me agradecido e ele se sentou defronte de mim, num assento esculpido na pedra e começou a umedecer os dedos num liquido oleoso e a untar a asa e a cabeça machucadas do pássaro.
Depois, olhou-me e disse: “ O vendaval jogou este pobrezinho contra as pedras, entre vivo e morto… Pudessem os temporais quebra as asas dos homens e machucar suas cabeças!
Mas o homem foi amassado com medo e covardia. Mas presente a tempestade, esconde-se nas fendas e nas grutas.”
Retruque, com a intenção de alimentar a conversação: sim o pássaro e o homem têm essências diferentes. O homem, viva sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Seus olhos brilharam e seus braços se abriram como se tivesse encontrado em mim um aluno de rápida apreensão. Depois disse:” muito bem, muito bem. Se acreditas no que dizes, abandona os homens e vive como os pássaros, á lei da terra e do céu.
Respondi: Claro que acredito no que digo.
Ergueu a mão e, voltando a seu tom anterior, disse: “Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes, mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
Temporais
Gibran Khalil Gibran

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