O Fio da Literatura | João Ubaldo Ribeiro

“ A mesma técnica de despertar a consciência deve ser aplicada ao caos, bem menos fáceis de achar , em que a mulher resiste seriamente a ideia de ir para cama com outra mulher, nesse ponto as mulheres se beneficiaram do machismo que mitificou as tranas entre mulheres e lhes conferiu um status estético fajuto, muito superior a do homossexualismo masculino. Tanto isso não é natural que durante muito tempo acontecia o contrário na Grécia, acontecia na Roma, antinatural uma conversa, empulhação conciliar, brochura calvinista, veadagem anglicana enrustida, tudo isso e o resto que conhecemos. As mulheres, mesmo as mais quadradinhas, há muito tempo se livraram das culpas por haverem transado com amiguinhas na infância, nem lembram, a sociedade faliforme não dá a menor importância a essas coisas, não são nem transgressões interessantes.
Nada disso, na verdade, foi apenas outra conferencia, elas me pegam desprevenida. Eu apenas queria mostrar como arrumei o esquema invejável com Paulo Henrique e como fiz dele um homem completo. Já tinha contribuído para muitos casos desses, continuo a contribuir, até com a ajuda dele, mas ele foi total, foi realmente uma escultura. Não tive filhos, mas tive algo que de mais meu, duvido que alguém pudesse ter feito de um filho o que fiz dele, nunca. J era obra para encerrar minha vida. Mas, felizmente, minha vida não se circunscreveu a isso, foi dedicada a minha missão, e eu levei essa missão a consequências possíveis e imagináveis, com uma dedicação que nunca esmoreceu. Eu fiz o bem a muita gente, muita gente, e cheguei ao ponto de dizer isso com orgulho, apenas com contentamento. Eu já falei muito em Deus aqui fica difícil dizer que alguém acredita em Deus e fala tanto de sacanagem. Minha resposta é como se eu dissesse:” desculpe, assim não dá pra conversar”.
Eu serei a voz de Satanás, sem dúvida. Mas, não, lamento dizer-lhes; lamento mesmo, porque sei que isso vai fazer muitos sofrerem mais do que no inferno, mas eu sou a voz de Deus. Não só porque sou mesmo a voz de Deus. Não sou profeta, muito menos o Messias, mas sou a voz Dele como na teofania do livro de Jó – Onde estáveis, quando Ele criou as fêmeas e os machos e lhes deu como misturar-se livremente uns com os outros? Onde estáveis quando Ele criou todos os mistérios que levam ao Desejo e a tesão e tornam sublimes os abraços?
Onde estáveis, quando Ele criou as ânsias imortais que agora forcejais por sacrilegamente abafar e matar?
Onde estais, depois que ELE vou deu o poder do prazer inocente e agora cuspis nesse poder e pretendeis que vossas palavras valham mais que as Dele?
Eu sou a voz de Satanás, Satanás odeia a luxuria, não é invenção dele, assim como a Bondade. Tanto uma quanto a outra, Satanás usa solertemente para seus fins malévolos. Eu sou a voz d Deus, sou uma das vozes de Deus, eu não estou maluca. Ou por outra, posso estar como qualquer um pode estar, o que faz com que a palavra perca o sentido.
Eu nunca blasfemei, jamais saiu da minha boca uma blasfêmia, uma queixa contra Ele, só louvor. Minha doença mesmo, minha doença, antes que eu me acabe e ninguém saiba o fui. É um aneurisma no meio do cérebro, inoperável. Sempre esteve ai, só soube faz algum tempo. No começo me assustei, mas não levei dois dias assustada, achei que será uma boa morte, provavelmente rápida. Já deixei instruções para doarem o que puder ser doado e tocarem fogo no resto e socarem as cinzas onde quiserem.
Mas não era uma boa razão para eu me maldizer e blasfemar? “
Extraído da obra : A Casa dos Budas Ditosos – LUXÚRIA
Autor: João Ubaldo Ribeiro
COLEÇÃO PLENOS PECADOS.

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