Navalhadas Curtas: Folhetos em Fúria

Olho pela janela as ruas de Pelotas, não se parecem com um tempo de pandemia mortal. Tudo normal ou quase normal. Proximidades, falta de máscaras, germes e vírus. Naturalmente pouco entendimento.
Desço para pegar a correspondência, os correios ainda estão em greve? Se estão as minhas contas não sabem disso. Seguem chegando com toda normalidade possível.
No portão do prédio uma linda e triste moça entregava folhetos de propaganda, ela os enfiava nas caixas dos correios freneticamente.
Ela está impaciente, incomodada com raiva ou com alguma daquelas dores que fazem a gente colocar para fora nosso pior… a raiva do mundo.
-Bom dia – digo eu.
Ela me olha com olhar estranho e não responde. O chato insiste::
-Difícil colocar estas coisas nas caixas né… essa entrada é fina…bem
-Difícil senhor? É impossível…sabe…é impossível, impossível ( já com a voz alterada ).
Não digo mais nada, fico olhando pra ela, sei que não está bem.
Pego alguns folhetos e ajudo ela a terminar de enfiar nas caixas de correio o mais rápido possível. E termina. Não falamos nada.
Então ela juntas suas coisas e sai em silencio, caminhando pesado. Fico olhando-a se afastando e pensando cá com meus botões que merda será que tem na vida dela para estar assim?
Como uma resposta telepática a moça que estava se afastando para no meio da quadra e grita: desculpa moço…minha vida ta uma merda!
Disse isso se seguiu e segui seu caminho sumindo na próxima esquina.
Fio da Navalha.

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