Sarjetas Iluminadas – Pensadores lunares

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[vc_row][vc_column width=”1/1″][vc_column_text css_animation=”bottom-to-top”] Por vezes é bom ser vitima do acaso. Quando coisas boas nos encontram. Nem sempre é possível. É bom que seja assim incerto, prazeres que se repetem tornam-se oxidados, cansados previsíveis como um peixes no aquário, peixes felizes?

Estranhamente gostamos é disso, as linhas seguras, firmes que dão certo, ainda que seja um certo ensebado, graxoso, vaselinado de medo…trem nos trilhos. Eis nossa felicidade, e sacrifício pleno, e assim nos colocamos para alcança-la. Sem duvida é mais fácil, viver fora do cercado é pra poucos.

Olho através da janela do trabalho, entre estes pensamentos errantes… sou assim, gosto de filosofia barata, trocar ideias do eu não sou eu… e olhar a noite. A noite cai modorrenta sem promessas de nada… dia vestindo-se sombras.

Minha sala de trabalho, agora tomando forma mais ordenada, me faz sorrir mais confiante. É preciso alguma ordem na vida, nada demasiado ou inflexível. Tudo se modifica em nós e fora de nós… ainda que silenciosamente e imperceptivelmente… a serpente rastejando lentamente em vão escuro, cura e perigo. Um dia não somos mais os mesmos.

Como já sabem, tenho meu ritual sagrado. Saio do trabalho, próximo as vinte e três horas chego em casa, com sede. Não sei o que estava havendo no meu prédio. As baratas estão disputando espaços com os moradores. Não esquento a cabeça… poderiam ser ratos, não é? Baratas são toleráveis. Afinal é preciso respeitar um ser que sobreviveria a hecatombe atômica… nós viramos poeira… e baratas sorriem. Penso o que Darwin diria sobre isso… a sobrevivência dos mais adaptados.

Sento-me a mesa da sala… com uma garrafa de rum quase cheia, meu pote ouro. Uma pedra de gelo e sirvo delicadamente. O primeiro gole é sempre como adentrar um quarto de uma virgem, a primeira tragada do cigarro, o beijo prometido do amor, o olhar de um filho.

Chego á janela aberta… puxa como a noite esta linda hoje, irresistível. O primeiro copo de rum é morto rapidamente, fazendo acordar inquietações em mim, coração bate mais forte. Então entro numas… olho relógio são quase meia noite. Tenho que sair de casa, preciso ir pra rua.. o cheiro das ruas, noite, álcool, fumaça dos cigarros abandonados e suor de um dia. Meu celular parece morto. Não brilha, não grita… nada. Por andariam as pessoas ?

Matei o segundo copo de rum caprichado. Sentia as turbinas a pleno vapor. Subi no carro e fui em direção ao Porto.

Onde mais seria?

Na minha segunda casa, o Bar do Sujeira. Estaciono o carro, o bar estava tranquilo, parado… sem musica, o mesmo rosnar de Sujeira, o seu eterno mal humor… algumas poucas pessoas ali, bebiam tranquilas

-E aí Sujeira? Tudo bem?

-Rrrrr é…claro.

-Por que tudo parece tão calmo hoje?

-Rrrrr… sei-lá… me parecem normais.

O que há de errado? Pensei.

Nem sempre existem respostas prontas e confortáveis. Como uma mosca varejeira eu sabia que não era ali meu lugar. Fui embora, ronronando o Kadett pelas ruas do porto vazio.

Não tinha pressa, fui olhando lentamente todos os vãos escuros a procura de que? Não importa. Sou mexido pelo acaso. Queria encontrar alguma ação, alguém, um abraço, um assalto, uma prostituta drogada, um beijo, um poema sideral, uma vagina de ouro. Mas tudo estava uma merda, bares vazios, fechados em uma quarta feira que naufragava, me levando junto ao fundo.

Paro o carro próximo a praça da Alfandega, olhando o porto vazio, guindastes , ossos de metal abandonado. Vasculhei o porta-luvas atrás do ultimo charuto. Desci do carro, acendi e me encostei no carro sorvendo silêncios, estrelas e minha inquietação.

Não temos o controle de coisa alguma, a vida precisa de conjunções as vezes… eu estava isolado naquele instante.

Uma valeta podre refletia as estrelas, fantasmas noturnos circundavam perdidos, e os neons todos estavam apagados.

Subitamente escuto alguém assoviando longe. Aquela musica eu conhecia… era um jazz de Duke Ellington, In a Sentimental Mood… sensacional. Era como quase como lágrimas santas vindas de um céu afogado em fumaça. Então aquele ser vagando na escuridão da rua… passo a passo. Foi clareando a cada passo… um terno branco… chapéu panamá também branco, ligeiramente inclinado sobre o olho esquerdo. Não senti medo, estava disposto a aceitar o destino, seja ele qual fosse. Era impossível não pensar em violência…

Então ele chega até mim:

-Boa noite senhor…

Aquela voz eu conhecia… Sebastian?

Então a risada sardônica revelou. O próprio.

-Yes meu brother… Sebastian… o fantasma da ópera, o ilusionista obscuro, o chicoteador de silêncios…o porra do diabo e a semente de Deus.

-E esse terno cara? Porque vestido assim?

-Sempre quis vestir algo assim… e vagar por ai…meio Zé Pilintra…e Zé Pilantra…

-Mas Fabiano… mas o que fazes aqui?

-Atrás de ação… porem nada aconteceu… então…

-A vida é feita de simultaneidades naturais… e entender a vida é fazer que nossa natureza mergulhe na correnteza do viver…

-Sei… então hoje nada vai acontecer?

-É isso… nada… vai pra casa.

-E tu? Vai ficar por ai caminhando sozinho? Uma carona?

-Não. Tá tudo em paz… estamos sempre sozinhos.

Sebastian foi se afastando, assoviando a mesma canção.

Eu não brigaria com o destino errante. Aquela madrugada havia ficado longa demais, solitária demais. Tomei um ultimo drink em casa, e adormeci na sala entre as baratas .

Luís Fabiano[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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