Fio da Literatura – Animal Tropical

“Subo as escadas pouco a pouco. Estou morto de tanto rum. Aí caramba, agora me lembro, que não comi nada!

No sétimo andar, bato na porta de Glória. Várias vezes, por fim ouço alguém vindo e perguntando:” Quem é?” .”Pedro Juan”.
Abrem a porta.
É a mãe de Glória.

Pergunto:” E Gloria?”.

A velha bloqueia a porta e me diz, hesitante, um pouco nervosa.
-Ela não sabia que você vinha hoje…são três da manhã.
-E daí? -Bom, é que…
-Me deixe passar.
-Não, é que…
-Me deixe passar. Ela está com alguém no quarto.
-Fale baixo que vai acordá-la. E você sabe como ela é.
-Não falo baixo porra nenhuma! Me deixe passar.

Nesse atropelo, Gloria sai do quarto, meio dormindo:

-Que zona é essa?
-Zona porra nenhuma. É sua mãe que não me deixa passar.
Atrás de Gloria sai um homem do quarto. De cueca. Quando o vejo me gela o sangue. É branco, de baixa estatura, e peludo como um urso. Deve ter a minha idade. Talvez um pouco mais.
Fico sem saber o que dizer. Paralisado. É como se todo o prédio caísse em cima da minha cabeça. Dou meia volta e continuo subindo a estada até a cobertura.

A porta se fecha atrás de mim. Me sinto o sujeito mais cachorro e humilhado do mundo. Abro a porta com os olhos rasos água.

Quem é idiota a ponto de se apaixonar por uma puta?
Um homem de minha idade tem de agir com mais prudência. Pensar um pouco mais. Quando porra vou aprender a não me apaixonar? Me joguei na cama sem tirar os sapatos, repetindo para mim mesmo:” É preciso manter a distância, Pedro Juan, é preciso manter a distância.”

Animal Tropical – Pedro Juan Gutierrez.

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